domingo, 30 de junho de 2013

Gloria Pires escreveu para RG sobre a experiência em seu papel em Flores Raras

Gloria Pires em cena: atriz escreveu um relato para RG sobre sua atuação em “Flores Raras”


Por Gloria Pires 

Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop! Filmamos a vida dessas duas mulheres incríveis, reais. Tomada de poesia e beleza, mas também de muita dor e perdas, como foi a história de amor entre elas. Há 15 anos, filmava ainda O Quatrilho, com Fabio Barreto, quando a Lucy Barreto me chamou e disse: “Já sei qual será nosso próximo projeto”

Ela tinha acabado de comprar os direitos do livro Flores Raras e Banalíssimas, da Carmen Lucia de Oliveira. Eu não conhecia nada da história delas. E achei tudo surpreendente. Inusitado! Bishop e Lota tiveram um relacionamento feliz mas conturbado, e com um fim trágico. Uma relação que marcou profundamente a poesia de Bishop, como mostra a maioria das biografias da escritora. Bishop e Lota, apesar de terem temperamentos diferentes, eram muito fortes, cada uma a sua maneira. Lota, minha personagem, é descrita nos livros, em depoimentos de amigos (e também de inimigos) como “uma força da natureza”. 

Uma mulher destemida, à frente de seu tempo. Realmente uma pessoa extraordinária, que atraía a admiração e a atenção de todos. Ela foi uma mulher que soube quebrar paradigmas. Em todos os sentidos. E estamos falando de anos 1950 e 1960! Uma época em que não era fácil assumir suas escolhas e suas ideias. Lota era assumidamente homossexual. Eu, com 43 anos de carreira, nunca tinha tido oportunidade de fazer um papel assim. E isso me instigou. No entanto, a homossexualidade é apenas um dado da personalidade de Lota. Um dado que, claro, atiça a curiosidade do público. 

Mas não é o que a define. E o Bruno Barreto trata a questão de forma extremamente elegante. Tudo está muito bonito, e não poderia ser diferente, em se tratando de contar a história de uma esteta, como foi Lota. Arquiteta, Lota de Macedo Soares tinha um olhar muito preciso. Ela era voltada para as artes, estudou fora do Brasil, e tinha um senso estético apurado. Gostava de tudo que era belo. O Parque do Flamengo, no Rio, foi sua maior obra. A que realmente marcou sua carreira. 

Contam que Lota era muito direta e franca. Por causa de seu trabalho, lidava diariamente com muitos homens – de políticos poderosos a peões de obra. E Lota não se intimidava. Não poupava ninguém de seus comentários. Há uma história ótima, que ilustra bem sua personalidade: durante a obra da casa de Samambaia, havia uma pontezinha de madeira, e Lota não deixava que nenhum caminhão pesado passasse por ali. Lota ameaçava, com espingarda em punho, quem ousasse desrespeitá-la. 

Na infância, na Suíça, onde estudou em colégio interno, a freira confiscou uma pequena pistola que ela tinha. Mas, às vezes, liberavam a arma para que Lota desse uns tiros pro alto no jardim. Sabiam bem que ela precisava liberar aquela energia de alguma forma e querer domá-la seria uma luta inglória! Durante toda sua vida, foi assim. Mas Lota tinha um lado doce, um lado feminino. Um lado muito maternal. Acho que ela soube encontrar o equilíbrio entre seu lado masculino e feminino, como poucas. 

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