segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A Leoa entra em cena

O Globo - 29 de Novembro de 1992



Uma boazinha, outra malvada. Elas estão de volta em versão renovada e começam a gravar amanhã suas primeiras cenas em "Mulheres de areia", com estréia prevista para fevereiro. Chamam-se Ruth e Raquel, são gêmeas idênticas e trazem no rosto traços inconfundíveis - os da atriz Glória Pires, afastada do vídeo desde a novela "O dono do Mundo".

Mãe pela segunda vez há menos de quatro meses, Glória tem se desdobrado nos últimos dias para conciliar os cuidados exigidos pelas filhas com o trabalho de composição das personagens que vai encarnar. Concentra-se também na leitura dos 40 primeiros capítulos. As suas falas, como Ruth e Raquel, equivalem às de todos os outros personagens da novela juntos. Haja fôlego.

Glória não reclama. Com 22 anos de carreira - fez 15 novelas e quatro filmes - ela se mostra amadurecida aos 29 anos e revela o amor à profissão no brilho dos olhos e no entusiasmo com o novo trabalho. Leoa, como seu signo.



O GLOBO - Você ficou um ano longe da TV. O que pesou na decisão de voltar?
Glória Pires - Ainda acho, às vezes, que não deveria estar voltando. Queria dedicar um tempo maior para a Antônia, que está com quatro meses. Mas a possibilidade de viver dois personagens na mesma novela acabou pesando. Uma oportunidade como essa é difícil de aparecer de novo. A hora certa para sair do ar e para voltar é uma loteria. Quando tenho que tomar decisões desse tipo, respeito muito minha intuição. E ela não costuma falhar. Nas vezes em que decidi errado, forcei a barra.

O GLOBO - Na novela, Ruth é a boa e a Raquel a má. Nesta haverá algum traço da Maria de Fátima de "Vale tudo"?
GLORIA - Não dá para comparar: A Raquel tem uma maldade mais básica que a Maria de Fátima. Ela só quer viver bem, ter grana, casar com um cara rico. E vai fundo nisso, mesmo que signifique roubar o namorado da irmã. Maria de Fátima era maquiavélica e sua maldade era mais sofisticada. Era uma personagem que não apelava para o óbvio.

O GLOBO - A preparação das personagens deu trabalho em dobro?
(Glória vai buscar um pacote com os 40 primeiros capítulos da novela, com as falas de Ruth marcadas em verde e as de Rachel em laranja).
GLORIA - Só para ter uma idéia, dá uma olhada nisso, As minhas duas personagens falam tanto quanto todos os outros. Sem exagero. Por ser uma novidade interpretar gêmeas, tive um trabalho de pesquisa muito maior. Inclusive entrevistei quatro gêmeas, para saber como se relacionam. E constatei que elas são, normalmente, muito unidas, ao contrário do que vai acontecer na novela.

O GLOBO - De uma hora para outra você precisa se desdobrar em seis - duas vezes atriz, duas vezes mãe, dona-de-casa e mulher do Orlando...
GLORIA - É complicado. Naturalmente vou trabalhar em condições especiais, pois não há a menor condição de passar um dia inteiro gravando, como acontece muitas vezes. O esquema de gravações terá que ser adaptado ao meu ritmo.

O GLOBO - E a velha cobrança de ter que atuar no palco, continua?
GLORIA - Ainda existe, mas o respeito é maior. Provei que não foi preciso ter pisado no palco para mostrar que sou boa atriz. Mas é uma vontade que tenho. No palco, a independência do ator é maior.

O GLOBO - Qual é a fórmula de uma boa novela?
GLORIA - Não basta ter uma estrela para a novela dar certo. É preciso ter um bom texto, entrosamento entre a equipe, num clima de respeito mútuo, e bons profissionais.

O GLOBO Mas não é sempre que a equipe trabalha nesse clima de respeito mútuo, há boatos...
GLORIA - Olha, tem muita gente que usa o crachá da Globo como se fosse out-door. Procuro ficar sempre distante disso, me imunizar. Eu não me misturo mesmo. Tem muita gente afastada do vídeo há muito tempo e não sabe por que. Muitas vezes a razão está no disse-me-disse.

O GLOBO - O horário das oito dá mais audiência. Preferiria estar de volta neste horário?
GLORIA - Não tenho preconceito contra novela das seis, apesar da audiência menor e dos orçamentos bem mais baixos. Mas me disseram que "Mulheres de Areia" tem orçamento de novela das oito (risos). Em numa novela das seis pode-se experimentar mais.



O GLOBO - Qual a melhor novela em que você atuou?
GLORIA - De todas que fiz, a que mais se aproximou da perfeição foi "Vale tudo". Era folhetim, mas superatualizado com personagens bem desenhados, uma boa trama.

O GLOBO - É difícil contracenar com quem ainda não é ator?
GLORIA - É muito pior do que contracenar com um mau ator. O ator mesmo ruim, tem o que chamo de cabeça de ator. O ator revela na forma como se posiciona, na pesquisa dos personagens, na briga por seu trabalho. É difícil explicar a cabeça de ator. E é difícil também fazer uma cena com quem não é ator. Com atores, a cena vira um bate-bola.

O GLOBO - Como vai a cidadã Glória Pires?
GLORIA - Preocupada. Eu fico preocupada pelos meus filhos e pelos filhos dos outros. Quando minha filha vai à rua, eu fico desesperada, rezando para que nada aconteça a ela. A situação das crianças abandonadas é muito triste. Pode até parecer demagogia ou lugar-comum, mas o fato é que a situação é real e ninguém faz nada. Quando eu era menor de idade, o juizado de menores me enchia, querendo saber para onde ia meu dinheiro, se eu era explorada. Mas as crianças que são verdadeiramente exploradas não têm a menor atenção.

O GLOBO - E o que você espera desse novo Governo?
GLORIA - Sinceramente, não sei o que esperar do novo governo. Sempre que entra uma pessoa nova, a gente pensa "agora vai'', mas no final das contas acaba não mudando nada.

O Globo
29/11/1992

Fotos - Google Imagens

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