segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Gloria Pires afirma que interpretar Duda de O Outro Lado do Paraíso é um desafio: “Adoro sair da zona de conforto”

POR JOÃO PAULO REIS


Em O Outro Lado do Paraíso, Gloria Pires interpreta uma mulher com múltiplas facetas e enredos. Duda, sua personagem, anteriormente chamava-se Elizabeth e foi vítima de uma farsa que a obrigou a trocar sua identidade. Na história de Walcyr Carrasco, ela desembarcou no interior do Tocantins para se transformar na dona do bordel da cidade de Pedra Santa, e viu sua vida mudar completamente pela segunda vez ao ser acusada de assassinato. Com quase 50 anos de carreira, a atriz conversou com nossa reportagem e falou sobre o que a fez aceitar o papel, e deu sua opinião sobre vingança, trama principal da novela, que vem chamando a atenção dos telespectadores. 

Como está sendo para você fazer essa personagem tão sofrida?
“Está sendo um aprendizado. Estava conversando com o Mauro Mendonça Filho (diretor da novela), que não tenho lembrança de ter feito uma personagem como a Duda, com tantas mudanças e reviravoltas. Nunca tive essa experiência num único trabalho e tem sido maravilhoso, porque adoro sair da zona de conforto e viver um desafio. Aos 54 anos de idade, poder fazer algo realmente novo em novela, que é uma coisa que faço há quase 50 anos, é um presente. Um presentaço que recebi!” 

Na novela, a Duda se entregou para defender a filha de ser acusada de assassinato. Você faria o mesmo por um filho? 
“Não sei, acho que sim. Mãe está sempre se colocando na frente de tudo pelos filhos, e nada é mais bonito que isso na dramaturgia, porque prende as pessoas e emociona. É uma relação sempre bela, mesmo quando trágica.” 

Daqui há algumas semanas, a Duda vai conseguir reunir as duas filhas, já sabendo quem elas são… “Houve a descoberta da Clara (Bianca Bin) e agora vai acontecer o reencontro com a Adriana (Julia Dalávia). Na verdade, elas já estavam ali se encontrando, mas não sabiam que eram mãe e filha, e isso vai acontecer de uma forma bem espantosa.”

Como tem sido o feedback do público nas ruas em relação à novela e à sua personagem? 
“Há muito tempo eu não escutava as pessoas dizerem com tanta ênfase sobre como a novela está boa. Dizem que correm para a casa para assistirem, que não conseguem esperar o capítulo seguinte para saberem o que vai acontecer. O público é bem diverso, são homens, mulheres, crianças, uma recepção maravilhosa. Todos os comentários que chegam são excelentes.” 

Como você disse anteriormente, tem quase 50 anos de carreira. O que te fez aceitar esse papel? 
“Eu nunca tinha feito novela do Walcyr Carrasco, então, o convite dele foi um Start. Pensei: ‘Que bacana, a essa altura vou fazer uma novela do Walcyr’, e pude também reencontrar meu amigo Mauro Mendonça Filho, já que há séculos não trabalhávamos juntos. Fiquei animada com a trama também, mas eu não sabia tudo isso da trama não (risos). Só sabia que ela era uma mulher rica, bem casada, que iria se envolver com uma pessoa, ser acusada de assassinato e fugir. E tudo tem sido muito bacana.” 

A Duda é uma personagem que em alguns momentos é doce, em outros momentos amargurada e dura. Existe alguma dificuldade na construção dessa personagem
“Eu acho que não tem nenhum trabalho que seja fácil, principalmente em novela. O fato de ser uma obra aberta, e levar tanto tempo sendo feita, ocupa um grande espaço em nossa vida pessoal, e tudo pode acontecer neste tempo, afinal, é quase 1 ano de trabalho. Pensar sobre isso é assustador. Quando a novela estreia, todo dia a gente acaba perdendo um capítulo. Essa corrida contra o tempo é a coisa mais complicada para levar qualquer personagem. O meu método é ter o fundamento da minha personagem, que funciona como uma âncora para mim. Mesmo que a maré jogue para cá ou para lá, existe essa âncora. Sabemos que em novela, o personagem vai por muitos caminhos, faz parte do formato e o público gosta disso.” 

A novela está batendo recordes de audiência. Você acredita que é o tema vingança que está atraindo o público? 
“Provavelmente, ao verem essa saga de redenção e justiça. A palavra ‘vingança’ é muito boa para a dramaturgia, para a vida não, mas como estamos falando de novela. Para a novela é ótimo.” 

Sabemos que ela será inocentada e discutirá com o ex-sogro, que vai morrer posteriormente. Você acha que depois disso a Duda vai se vingar da Jô? 
“Eu não sei (risos). Aí que está o problema: Eu ainda não sei. A Duda vai descobrir tudo. Não sei se ela vai descobrir o envolvimento da amiga. O Natanael (Juca de Oliveira) falou da Jô (Bárbara Paz) para a Duda lá atrás, que no fundo a Jô a detestava, mas não tem nada comprovado. Acho que o Walcyr não vai deixar passar isso (risos).” 

Você acredita que existe mesmo o prazer da vingança ou é apenas um veneno que a gente toma achando que é para o outro? 
“Com certeza! A vingança por mais que a pessoa esteja tomada por aquilo achando que está fazendo contra alguém, ela estará fazendo contra si mesma. São sentimentos muito nocivos, destrutivos. Para a minha maneira de viver, não saberia estar sob esse signo da perseguição e da vingança. Como somos humanos, às vezes pensamos as piores coisas, mas procuro não me conectar com isso. Vivemos um momento em que recebemos muita influência negativa. Tem horas que desligo o celular, não quero nem saber de rede social, nem mensagem, nem nada. É importante para dar uma zerada, senão fica difícil até terminar o dia.” 

Eu te comparo à Meryl Streep, porque a sua Duda se assemelha ao filme A Escolha de Sofia. Parecem várias personagens em uma só: era uma mulher rica, com desejo de ser estilista, depois mãe, angustiada, amargurada. Como é compor essa mulher com diferentes momentos e camadas
“É um presente! Um negócio maravilhoso, geralmente em cada trabalho a gente vivencia uma característica forte daquele personagem, e aqui eu estou vivendo diferentes características num único trabalho.” 

Você considera que a Duda é uma das suas personagens mais difíceis? 
“Com certeza! Ainda mais porque existe o elemento surpresa. A cada bloco novo de capítulos que eu pego, já falo: ‘Opa! Mais um looping, vamos embora’. É isso!” 

Você acredita que depois de tudo o que a Duda passou, ela vai ficar mais esperta, menos difícil de ser enganada? 
“Realmente não sei. É aquela história, se tudo se resolve, fica difícil. Não sei o que o Walcyr tem em mente. Ele faz bastante mistério, mas com certeza não vai desperdiçar tudo o que puder usar para prender o público, e trazer mais emoção para a trama, o que ele faz magistralmente. Ele é intrigante, porque faz coisas, que dão certo, as pessoas assistem, gostam e compram aquilo. Não sei se a Duda vai ficar segura, super atenta, ou se a malícia finalmente vai habitar aquela cabeça (risos).” 

Como vai ser o relacionamento dela com as filhas? 
“Acho que vai haver bastante conflito. Mesmo com a Clara, com quem ela já tem uma pré-disposição positiva, e já se dá bem, haverá conflitos, senão perde a graça.” 

Ela passa por dramas demais. Você acha que ela é uma pessoa azarada? 
“É difícil fazer um paralelo com a vida real, acho que o Walcyr pega exemplos reais, casos famosos, ou casos próximos e vai temperando, colocando no caldeirão. Acho que nenhum autor tem em mente fazer um personagem completamente real.” 

Após gravar todas essas cenas, é difícil se desligar da personagem? 
“Sim! Isso é. Não só da cena, mas do próprio dia. Tem dia que você passa por tantos momentos, que você precisa parar e estudar para saber onde você estava, e para onde vai. É uma coisa que deixa a cabeça muito a mil. Ao chegar em casa, levo um bom tempo até baixar a bola e conseguir relaxar, e dormir.” 

A Maria de Fátima, de ‘Vale Tudo’, está quase fazendo 30 anos. As pessoas ainda se lembram? 
“As pessoas amam Maria de Fátima. Amam! Até pouco tempo, estava rolando direto, fiquei 8 meses recebendo pelo Whatsapp, aquela famosa cena com Sebastião Vasconcelos, e Regina Duarte, eu falando sobre o nosso sistema, nossa cultura, o jeitinho brasileiro, o que é aceitável, o que não é, e para quem não é.” 

Como é para você atuar ao lado dessa nova geração, incluindo a Bianca Bin que é tão jovem e já é como um monstro da atuação? 
“Ela é o monstro mais bonito (risos). Eu adoro essa nova geração que une talento, humildade, comprometimento, dedicação muito bem dosado com humor, sensibilidade e alegria.” 

É a sua primeira novela do Walcyr Carrasco. Em algum momento houve aquele baque ao pegar o texto, por ser um novo autor para você? 
“Eu adoro viver desafios e sempre estou buscando isso. Não gosto de ficar na zona de conforto, fazendo mais do mesmo, e, ele me ofereceu exatamente isso, sair da zona de conforto. Todas as viradas possíveis em um trabalho só. Estou no paraíso, e não do outro lado (risos).” 

Como você lida com as redes sociais? 
“Estou aprendendo, porque isso é uma coisa nova, entender quem é quem, entender as coisas que você deve ou não fazer ou responder. Reconhecer o que é um comentário real ou uma coisa armada. Eu gosto de aprender. Por mim, seria uma estudante a vida toda. Adoro entender o que é novo e saber lidar com isso.” 

* Entrevista feita pelo jornalista André Romano

Fonte:
Observatório da Televisão

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