sábado, 12 de abril de 2014

Gloria Pires interpreta heroína alagoana da psiquiatria em filme que será lançado este ano

Ela nasceu em Maceió (1905), estudou no colégio Santíssimo Sacramento, foi uma das primeiras mulheres a se formar em Medicina (na Faculdade de Medicina da Bahia) e se tornou uma das heroínas da psiquiatria brasileira ao se negar a usar tratamentos agressivos (como o eletro-choque e a lobotomia) em pacientes com esquizofrenia e outros distúrbios – inovando com o uso de métodos hoje consagrados como a terapia ocupacional e o uso da arte para seus pacientes se expressarem, assim como outros métodos alternativos como o estímulo ao contato com animais domésticos para acalmar seus pacientes.


"Estamos todos apaixonados por ela”, disse a atriz Gloria Pires há dois anos, quando começou a estudar a vida da alagoana para interpretá-la no filme Nise da Silveira – A Senhora das Imagens. “Está sendo uma maravilha, um aprendizado, um sonho". Em entrevista para o canal Telecine (veja vídeo abaixo), a atriz também falou da emoção de filmar no local onde Nise trabalhou, o Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, hoje Instituto Municipal Nise da Silveira, Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. 

O filme se passa entre 1942 e 1944, período em que Nise chega ao Rio de Janeiro para trabalhar no hospital e é designada para cuidar da área de terapia ocupacional do centro psiquiátrico da unidade, transformando o setor. Os pacientes passam a ser tratados como “clientes” e a participar de atividades como jardinagem, teatro, dança e música. As chamadas oficinas de arte acabam se tornando ferramentas eficazes e fundamentais para a melhora significativa dos internos. “A partir desse momento, alguns desses esquizofrênicos embotados transformaram-se em grandes artistas. E, pela leitura que fazia dessas obras, Nise começou a penentrar no inconsciente deles. Este talvez tenha sido seu grande triunfo. O filme fala disso tudo”, comentou o diretor Roberto Berlinder. 

 Dirigido por Roberto Berliner, o filme está em fase final de edição e deve ser lançado ainda este ano. Além de Gloria Pires no papel principal, o elenco conta com a presença de atores como Flavio Bauraqui, Fabrício Boliveira, Julio Adrião, Felipe Rocha e Claudio Jaborandy. Essa semana, a expectativa em torno do lançamento do filme aumentou ainda mais com a exibição no Rio de Janeiro e em São Paulo do documentário "Posfácio - Imagens do Inconsciente" por Eduardo Escorel, montado a partir da entrevista que o cineasta Leon Hirzman fez com a psiquiatra na década de 1980 durante as filmagens do documentário “Imagens do Inconsciente”. 

 Uma prova de que, quanto mais o tempo passa, o trabalho da alagoana - que se correspondia diretamente com o psiquiatra e psicoterapeuta suiço Carl Jung, de quem foi discípula – ganha cada vez mais força - assim como ocorreu com a obra do seu conterrâneo e ex-companheiro de prisão, Graciliano Ramos, que fez questão de descrevê-la em suas “Memórias do Cárcere”. 

 (Leia abaixo trecho do livro em que Graciliano descreve como foi apresentada à alagoana selecionado por Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do Instituto Moreira Salles) 

 "Numa passada larga, atingi o vão da janela: agarrei-me aos varões de ferro, olhei o exterior, zonzo, sem perceber direito por que me achava ali. Uma voz chegou-me, fraca, mas no primeiro instante não atinei com a pessoa que falava. Enxerguei o pátio, o vestíbulo, a escada já vista no dia anterior. No patamar, abaixo de meu observatório, uma cortina de lona ocultava a Praça Vermelha. Junto, à direita, além de uma grade larga, distingui afinal uma senhora pálida e magra, de olhos fixos, arregalados. O rosto moço revelava fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios grisalhos. Referiu-se a Maceió, apresentou-se: 

– Nise da Silveira. 
 Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, em vivo constrangimento. De pijama, sem sapatos, seguro à verga preta, achei-me ridículo e vazio; certamente causava impressão muito infeliz. Nise, acanhada, tinha um sorriso doce, fitava-me os bugalhos enormes, e isto me agravava a perturbação, magnetizava-me. Balbuciou imprecisões, guardou silêncio, provavelmente se arrependeu de me haver convidado para deixar-me assim confuso."





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