sábado, 30 de junho de 2012

Em 1988 Gloria Pires comenta sobre 'A difícil arte de fazer o mal'

Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 27/11/1988
Autor/Repórter: Mara Bernardes


A difícil arte de fazer o mal


Quando foi convidada para viver seu primeiro papel de vilã, aos 18 anos de carreira, Gloria Pires aceitou sem titubear, até porque a marca Gilberto Braga/Aguinaldo Silva/Leonor Bassères garantia o produto. Mas a repercussão da personagem foi tão superior à esperada que pegou a atriz de surpresa. Fátima, mesmo sendo antagonista da heroína interpretada por Regina Duarte, grande ídolo nacional, tornou-se um sucesso. E encontra até quem a defenda, pelo menos na fase atual, em que está sofrendo.
Valendo-se do lema de que o negócio é levar vantagem em tudo, há cinco meses a ambiciosa personagem de Gloria Pires vinha pisoteando os corações dos personagens bons de "Vale tudo", fazendo uma maldade atrás da outra. Nem assim, porém, Maria de Fátima Aciolli ganhou a antipatia geral do público - "porque Glorinha é brilhante, talentosa, espontânea", opinam defensores como o colega Sérgio Mamberti, que faz o Eugênio na novela. Entre os telespectadores, são muitos os que se apiedam dos seus dramáticos momentos, em que a vilã sofre como qualquer mocinha romântica de histórias açucaradas, exigindo de sua intérprete tantas lágrimas que ela até sonha com a nova ascensão dessa jovem megera que, pelo visto, nada nem ninguém consegue domar.

Sorrindo marotamente, a atriz garante que o calvário de Maria de Fátima está no fim. Na sexta-feira, ela ainda gravava a fase ruim da personagem, que vai enfrentar os dissabores de ganhar um filho de César, ser abandonada pelo amante e recusada na casa da mãe, chegando até a vender seu bebê por 25 mil dólares a um casal estrangeiro, só para poder voltar a morar num apart-hotel. Mas amanhã Gloria começará a gravar as cenas em que Fátima dá a volta por cima, uma volta que promete ser triunfal:

- Agora que ela está por baixo, estou fazendo tudo para deixá-la com o ar abatido e com a aparência descuidada. Mas vou ter que sofisticá-la outra vez e até pegar um solzinho, para que ela fique mais de acordo com o clima de verão. Estou preparando grandes surpresas... 

 O entusiasmo faz parte da personalidade dessa leonina de 25 anos. Gloria se diz cansada de tanto trabalho, das cenas em que precisa se debulhar em lágrimas, dos longos e emocionados textos que tem trocado com Regina Duarte, Carlos Alberto Riccelli e Cássio Gabus Mendes. Mas não perde o vigor, apesar dos problemas de saúde que a estafa lhe tem provocado:

 - Vou esperar a novela terminar, no final do ano, para me tratar. Longe da Maria de Fátima, vai ser mais fácil. Fazer o papel é desgastante, principalmente porque ela tem valores opostos aos meus. Apesar de Fátima ser uma personagem, eu estou na pele dela, ali na telinha, recebendo a energia das pessoas que estão vendo suas maldades e reagindo contra elas. É barra! 

 Após dez novelas e quatro filmes, Gloria aceitou fazer o papel de má pela primeira vez, pensando em crescer como atriz -"para mim e para o público seria uma coisa nova", argumenta. E não se arrepende, mesmo que a novela lhe tenha custado sua lua-de-mel, deixada para mais tarde. Porque foi justamente em abril, quando "Vale tudo" começava a ser gravada, que ela e o músico Orlando de Morais Filho se casaram:

- Mas se não nos casássemos naquela época, agora então, no final da novela, é que seria mesmo uma loucura. 

 No momento, o casal mora provisoriamente num apart-hotel no Leblon, enquanto procura no Leme o apartamento ideal. Mas sem pressa, até porque a novela vem tomando conta de quase todo o tempo da atriz, que, quando tem uma folga, dedica-se ao marido e à filha Cleo, de 6 anos, que sofre junto com a mãe, ao vê-la na televisão:


 - Ela sofre porque me defende, ainda mais quando vê a Fátima apanhar, chorar. Eu até tento impedir que ela veja a novela, mas a Cleo é osso duro de roer. 

 Longe de ser a mãe desnaturada que interpreta em cena, na vida real ela adora paparicar sua filhota, que é muito independente. Cleo acorda cedo e prepara sozinha seu café da manhã, na mesa que sempre encontra arrumada e com bilhetinhos de Gloria. Depois, vê televisão ou veste o biquíni e vai para a piscina do edifício:

Não é de orgulhar qualquer mãe? E, além de estar na escola, Cleo ainda faz balé. Há poucos dias, dançou no Teatro Nelson Rodrigues.

 A felicidade de ter uma filha é tanta que Gloria quer ser mãe novamente - e, em matéria de maternidade, quer esquecer todas as atitudes de Maria de Fátima:

 - Minha personagem é um tipo mimado, não habituado a trabalhar, a arcar com as conseqüências do que faz. Pessoas como ela, muito cercadas, sem contato com a realidade, são fogo! Não têm respeito pelos outros nem por si mesmas. Conheço gente assim, sei de muitas Fátimas, que já estão com mais de 30 anos na cara e não vão mudar nunca. São pessoas que não amam ninguém, porque não se amam. E gente assim não tem jeito.


Fonte:
TV Pesquisa - PUC-Rio

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