domingo, 5 de maio de 2013

Intérprete das gêmeas Ruth e Raquel, Gloria provou que tamanho de papel não é documento

Na pele de Raquel, Gloria infernizava quem atravessasse seu caminho Foto: Divulgação


O poder de Gloria Pires de ser camaleônica impressiona a cada trabalho. Ela troca de pele como ninguém. A prova maior disso foram as gêmeas Ruth e Raquel de “Mulheres de areia” (1993), que completa 20 anos. Na novela, o esforço da atriz não se resumiu a dar vida a duas personagens. Em determinado momento da trama, Gloria conseguiu a proeza de ser quatro: a mocinha, a vilã, a mocinha fingindo ser a vilã e a vilã fingindo ser a mocinha. Cansou?

 — Era divertido contracenar com os tipos de Gloria. Ela separava as gêmeas em cheiro, corpo, tom e alma. Ríamos muito nos bastidores. Ficamos amigos desde então — conta Guilherme Fontes, que interpretou Marcos, alvo da disputa das irmãs. 

Marcos Frota, que vivia Tonho da Lua, lembra que a Globo esperou por Gloria para fazer o remake.

 — A novela era para ter acontecido em 1992. Mas Glorinha engravidou de Antonia. A emissora preferiu adiar tudo para tê-la. Olha a força dessa atriz! Foi um ano de espera e valeu muito a pena. Tonho da Lua não existiria sem ela. Como Gloria fazia as gêmeas com maestria, meu personagem teve aquela gama de sentimentos. Sou muito grato a ela — emociona-se.

Lúcia de "Paraíso" tropical era um papel pequeno, mas Gloria a fez ser importante na trama Foto: João Miguel Jr. / Rede Globo / Divulgação


 Além da interpretação, a atriz chamava a atenção pela beleza, que nessa época atingiu seu auge. Mas também foi um período pesado na vida de Gloria, a ponto de ela querer dar um tempo nas novelas. 

— Eu precisava parar. Estava com um bebê e fazia duas personagens. Gravava no Rio, em Tarituba (distrito de Paraty), que fica a três horas de carro daqui. Foi muito puxado. Minha mãe morreu no meio de “Mulheres de areia”. Uma série de coisas provocou um desgaste enorme, além do trabalho em si. Então, era necessário dar um tempo — diz ela, que acabou tirando férias da TV apenas até o ano seguinte, quando chegou o convite do diretor Carlos Manga para “Memorial de Maria Moura”.

Gloria e Tony Ramos contracenaram na TV, pela primeira vez, em "Belíssima" Foto: Divulgação / Rede Globo


 Bem mais adiante, com status de atriz de primeiro escalão da Globo e já colecionando protagonistas e antagonistas memoráveis, Gloria provou que nem sempre o tamanho do papel é determinante no sucesso da personagem. Ao saber que Gilberto Braga havia desistido de escalá-la para viver Lúcia em “Paraíso tropical” (2007), por achar que seu talento não era compatível com o pequeno destaque da moça na trama, Gloria insistiu que queria interpretá-la. 

— Eu quis fazer porque gosto de Gilberto e acho que a gente bate uma bola ótima. Sem contar que adoro estar com Dennis (Carvalho, que dirigu a novela). Ele é um grande amigo. Eu estava a fim do papel, mesmo ele sendo pequeno. E foi ótimo! — afirma a atriz, que fez a personagem ganhar importância na história, para alegria do autor: 

— Eu achava Lúcia aquém da Glorinha. Mas ela quis fazer e ficou satisfeita. O mais atraente foi vê-la ao lado do grande Tony Ramos

E por falar em Tony, o encontro do ator com Gloria em novelas só aconteceu graças a Silvio de Abreu. Ele escreveu a Júlia de “Belíssima” (2005) especialmente para a atriz, com a intenção de vê-la ao lado do grego Nikos. 

— “Belíssima” foi feita para ela e em cima dela. Sem a inspiração de Gloria, a trama não teria existido. Além disso, Tony e ela são dois atores que trabalham no mesmo diapasão, e eu não entendia por que nunca haviam contracenado. Depois me disseram que um dos grandes desejos de ambos era estarem juntos num trabalho — orgulha-se Silvio. 

Tony, por sua vez, é só elogios à colega: 

— Nossa parceria profissional é recente, mas nos conhecemos quando ela era menina. A partir de “Dancin’ Days”, víamos que a trajetória dela seria ascendente. Em “Vale tudo” (1988), tinha 25 anos e parecia uma veterana com 40 anos de carreira. A melhor versão de Glorinha é que ela se impõe com talento e dedicação e nunca acredita no aplauso fácil. Não ostenta. É uma atriz popular e se orgulha disso. 

 Gloria flertou com a comédia ainda menina 


Com o pai Antonio Carlos, Gloria fez comédia ainda menina Foto: Arquivo


 A experiência de ter feito o público rir em “Guerra dos sexos” não foi novidade para Gloria. Pouca gente sabe, mas a atriz começou sua carreira trabalhando em humorísticos ao lado do pai, o comediante Antonio Carlos Pires. Em 1970, fez uma participação no programa “Faça humor, não faça a guerra”. Dois anos depois, antes de estrear em “Selva de pedra”, esteve com Chico Anysio em “Chico em quadrinhos”. Em 1973, Gloria fez outras atrações comandadas pelo comediante: “Chico City” e “Satiricom”. 

Meu pai me influenciou sem saber, no dia a dia. Eu ficava vendo ele se caracterizar, ensaiar... Isso me fascinava. Nunca quis transitar pouco pelo humor. A coisa foi acontecendo de forma diferente. Mário Lúcio Vaz era diretor do programa do Chico e vivia falando que eu tinha que fazer novela. Não sei o que ele viu em mim, mas acabei indo por esse lado — conta. 

Responsável por levar Gloria a experimentar o humor novamente, o autor de “Guerra dos sexos”, Silvio de Abreu, enche a bola da atriz: 

— Ela vai da comédia ao drama com grande facilidade e convence em qualquer gênero.


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