domingo, 24 de abril de 2011

Gloria Pires fala sobre a vingança de Norma em 'Insensato Coração'

Nem a atriz é capaz de prever o que acontecerá quando Norma sair da prisão. Mas ela garante que a vingança dela está longe de ser uma caçada às cegas
Patrícia Villalba - O Estado de S. Paulo

Entre Crime e Castigo e O Outro Lado da Meia-noite, postos estrategicamente em suas mãos pelos autores Gilberto Braga e Ricardo Linhares, a enfermeira Norma prepara uma vingança que será deflagrada nos próximos capítulos de Insensato Coração. Não há quem duvide e, pelo contrário, são muitos os que esperam pela reviravolta na vida da mulher simplória que foi metida em enrascada sem remédio por Léo (Gabriel Braga Nunes), mau caráter canastrão que lhe fez juras vazias de amor que resultaram em seis anos de prisão.
Mas como as atenuantes são levadas em conta também na novela das 9, Norma será solta após cumprir um terço da pena, totalmente transformada e com um crime nas costas - a morte de Araci (Cristiana Oliveira), chefona do pedaço.
Desde o lançamento da novela, em janeiro, esse desabrochar é apontado como o grande acontecimento da trama que tem em Norma, não por acaso papel de Gloria Pires, sua personagem mais complexa. "Acho muito ousada a trajetória que o Gilberto e o Ricardo criaram para essa mulher totalmente despreparada para a vida que acaba passando por uma transformação como a que ela vai ter na cadeia", observa a atriz, em conversa com o Estado nos bastidores de gravação da novela, no Projac, ainda envolvida na sequência da rebelião que está para tomar conta da trama.
O caminho a que a atriz se refere é mais simbólico do que o "mergulho no inferno" que costuma representar a privação de liberdade na ficção e tão rica em detalhes quanto uma novela de Gilberto Braga merece.
Norma não está apenas com aquela "sede de vingança", tão clichê. Ela, de fato, mudou sua personalidade. "Ela se deparou com a miséria humana e dentro daquela realidade de matar ou morrer vai ter sua ética questionada o tempo todo", diz ela que, presença festejada na TV, voltou às novelas depois de quatro anos para fazer a personagem que mais chega perto de um antigo "papel dos sonhos" - o de Júlia Matos, a ex-presidiária de Sonia Braga em Dancin’ Days (1978).

O Gilberto Braga lançou Vale Tudo em 1988 com uma pergunta - "vale a pena ser honesto no Brasil?". Se a gente usar a trajetória da Norma como exemplo, dá para dizer que Insensato Coração responde a essa pergunta?

Essa pergunta foi constante na obra do Gilberto, as novelas dele sempre giraram em torno disso. Elas têm personagens que são honestos e vivem dentro de suas possibilidades e lidando com as dificuldades como parte da vida, e outros que não aceitam as limitações e querem de toda forma burlar essa condição, como a Maria de Fátima, de Vale Tudo, e agora o Léo, de Insensato Coração. No universo gilbertiano tem sempre essa questão, e acho que ele retrata isso muito bem.

A Norma tem todo um passado que está sendo construído e que, lá na frente, poderá redimi-la quando começar a vingança. Que vilania se pode esperar?

Acho esse termo "vilania" muito difícil (risos). Ele se encaixa num padrão de teledramaturgia que, no meu ponto de vista, acabou. O vilão nada mais é do que um empecilho na vida dos heróis da história - a função dele é impedir que as coisas deem certo. Não acho, por exemplo, que a Odete Roitman seja uma vilã, como dizem. Ela é uma personagem humaníssima, real, que a gente vê à beça por aí. Só não é uma pessoa agradável de se ter por perto (risos).

Dito isso, como ver a Norma? Ela não é uma personagem clássica de novela.

Exato. E isso é que é interessante nela. Gosto muito quando o autor ousa, sabe? O Gilberto sabe que a Júlia Matos (de Dancin’ Days) é uma das minhas personagens favoritas. E quando ele me falou da Norma, disse "é, de certa forma, ela é um pouco uma Júlia Matos". Só que no caso da Júlia tinha toda uma levada mais inocente - ela se sente sempre no alvo, muito desprotegida. Já a Norma, uma mulher despreparada para a vida, fica numa realidade na prisão que é matar ou morrer. E dentro desse matar e morrer tem uma ética, porque dentro desse mundo cão ela começa a se instruir, a ler. Isso cria uma situação nada convencional. Por isso, não sei como classificar a Norma.

Esse endurecimento diz respeito somente ao Léo ou ela vai virar uma revoltada?

Não, acho que ela não vira uma psicopata - pelo menos eu não entendi isso (risos). Essa transformação inicial acontece pelo fato de ela estar na cadeia. Ela tem um objetivo, e sabe que precisa se preparar. Mas a gente não sabe o que vai surgir no caminho dela.

Você se sente passando alguma mensagem através dos personagens? Isso pode determinar a escolha de um papel?

Sempre penso nisso, na responsabilidade de atuar. Porque é uma coisa que me dá extremo prazer, e eu não julgo a personagem que estou fazendo, e sim procuro trazer o máximo de material para que ela esteja ali inteira, firme e viva. A minha preocupação como atriz é essa. A gente poderia ficar aqui dias discutindo a função da novela, da televisão, e o que isso traz de bom e de ruim para as pessoas. Mas quando eu decido interpretar uma personagem há várias coisas envolvidas. À frente de tudo vem o que aquele personagem traz pra mim e o que eu posso oferecer a ele. Com quem eu vou fazer também é algo determinante. E tem meu momento pessoal. Mas eu fico muito feliz quando alguém comenta o quanto foi bom estar assistindo a um trabalho meu. Fico feliz quando alguma coisa boa sai da televisão para estar com as pessoas. Mesmo que seja através de um personagem antagônico.

Como carrega referências de tantas personagens marcantes depois que o trabalho acaba?

Eu abandono totalmente, tudo o que eu quero depois que acaba é voltar pra vida. Novela tem essa coisa: é tão intenso e extenso, que realmente toma a sua vida. Por isso, quero mudar o cabelo, botar tudo diferente, sumir.

Chegou a ver a reprise de Vale Tudo no Canal Viva?

Vi duas vezes só, quando fui a Florianópolis gravar. Mas estou gravando tudo, porque é uma novela espetacular.

E qual o sentimento de se ver tantos anos depois?

Nesse caso, achei muito bom, porque desde que fiz Vale Tudo, fiquei com ela como um referencial de novela boa. E ter revisto agora solidificou essa ideia. Até quando as pessoas dizem "ah, a moda data muito", eu penso "e daí?".

Gloria Pires em Dancin'days (1978)

Você tem mais de 40 anos de carreira, começou criança. Do que mais gosta e o que ainda a incomoda no ofício?

O que mais gosto é o prazer pessoal mesmo - é egoísta demais dizer, mas é isso (risos). E o que mais me incomoda... Não sei, as coisas vão incomodando cada vez menos, porque você vai aprendendo. Comecei a ser reconhecida nas ruas, de maneira massificada, quando fiz Dancin’ Days (1978). E eu tinha 14 anos, era uma menina tímida e passei por muitas coisas desagradáveis - como, por exemplo, estar na praia e vir um monte de gente pedindo autógrafo e querendo tirar foto. Isso era uma coisa que me causava um constrangimento horrível! Tanto é que parei de ir à praia, e hoje só vou quando viajo para algum lugar.

Não vai à praia aqui no Rio?

De jeito nenhum! A coisa de gravar na rua, externa, era um horror pra mim. Todo mundo parava para olhar, então me dava um medo, uma coisa de "não posso errar". Outra coisa difícil pra mim era fotografar. Morria de vergonha e sempre pensava "será que está cafona? Será que estou canastrando?". Hoje não é mais, mas já foi muito complicado.

Mas isso não chegou a fazer você se questionar na escolha da profissão?

Não, porque pra mim sempre foram coisas muito distintas. Ser atriz não tem nada a ver com dar autógrafo, tirar foto, dar entrevista. Na minha cabeça, isso sempre foi claro.

No lançamento de Insensato Coração, o diretor Dennis Carvalho comparou você à Fernanda Montenegro. E frequentemente você é chamada de "dama da televisão". Chega a se sentir vaidosa?

Acho que as pessoas que falam isso são muito queridas comigo porque, nesse caso, a Fernanda é realmente uma dama. É até constrangedor ser comparada a ela, que tem uma história de muito tempo. Não é a mesma coisa que eu.

Mas ela é mais velha que você, tem mais tempo de carreira.

Não é só idade, não. É estofo mesmo. Tive a oportunidade de trabalhar com a Fernanda (em Belíssima, 2005), ela é realmente uma dama em todos os aspectos - elegância, educação e carinho com as pessoas. Se me comparam nesse aspecto, fico feliz. Mas não se pode esquecer que ela tem muitos anos de trajetória e fez muitas coisas importantes. Enfim, fico constrangida (risos).

Li uma história de que você foi reprovada pelo Daniel Filho num teste para um papel aos seis anos. Depois, curiosamente, vocês acabaram firmando uma parceria de muitos anos e de muitos sucessos, como Dancin’ Days e Se Eu Fosse Você. Já falou disso com ele?

Muitas vezes! E se deu de uma forma muito engraçada, quando estávamos lançando A Partilha e viajamos por umas seis capitais. Numa entrevista, veio esse assunto - acho que foi ele mesmo que cantou a bola. Isso acabou virando uma coisa engraçada na hora. Depois que acabou a entrevista, ele disse "você viu que aquele negócio de eu te reprovar no teste deu super certo, né? Podemos repetir isso em outras entrevistas!" (risos). Mas a gente já tinha lavado essa roupa uns quatro anos antes. Ficou tudo esclarecido. Na época, ficou aquela coisa guardada, suspensa. Eu levei um tempo para digerir.

Antes de voltar à TV, você passou um tempo morando em Paris com a família. A distância gerou algum tipo de reflexão sobre o Brasil?

Estando lá, sim. É que, claro, gente deslumbrada tem em todo lugar e tem quem acha que morar em Paris é muito glamouroso. São aquelas pessoas que eu digo que gostam de "causar" - não é que sejam ricas, famosas ou inteligentes, é que só querem "causar", sabe.

Mas, no geral, para a maioria das pessoas, a vida é muito centrada. E me chamou a atenção de que essa responsabilidade é passada muito cedo para as crianças. Você vê os pequenos, cada um com sua mochila, carregando suas coisas sem reclamar. Acho isso tão bacana: a pessoa saber que precisa dar conta do que é seu. Sempre achei que isso fosse o certo da vida, o normal, e gostei de ver que existe um lugar onde as coisas são assim. É uma preocupação com o que realmente importa. Isso foi fantástico, um grande aprendizado.

Fonte de Pesquisa:


Um comentário:

Anônimo disse...

Glória parabéns pelo teu sucesso, e falar de Glórinha é sempre muito bom! um marco na tv Brasileira e nas nossas vidas com seus personagens inesquecíveis!Dentre os seus trabalhos o que mais amei foi mulheres de areia, ela simplismente arrazou, a novela deixa saudades ate hj!
Parabéns e muito sucesso!!!!