domingo, 17 de abril de 2011

Gloria Pires, uma atriz sem medo de encarar um personagem

Em "Insensato Coração", mais uma vez ela se despe da vaidade em nome da atuação

Lufe Steffen, especial para o iG

O clima está esquentando em "Insensato Coração". A protagonista Norma, antes uma humilde e tranquila enfermeira, caminha para uma transformação radical - será uma vilã impiedosa, disposta a tudo para se vingar de Léo (Gabriel Braga Nunes). Sua próxima medida será cuidar de assassinar Araci (Cristiana Oliveira), sua colega de presídio. Mas a metamorfose de Norma não seria tão bem-sucedida se a personagem não estivesse em poder de Gloria Pires.
Como a grande atriz que é, uma das características de Glória é descartar a vaidade e mergulhar na criação do personagem, incluindo desmontar sua própria imagem - uma atitude rara, principalmente entre as atrizes inexperientes da nova geração.
Gloria é uma atriz consagrada, que vem mostrando sua entrega e verdade em inúmeros trabalhos na TV e no cinema - nunca no teatro. A opção por personagens densos, malditos e marginais, o que muitas vezes inclui transformações físicas, sempre foi um prato cheio para astros de Hollywood, que adoram se metamorfosear física e emocionalmente para alcançar grandes interpretações. O Oscar adora premiar esse tipo de dedicação com um prêmio de interpretação, como aconteceu com Charlize Theron em "Monster - Desejo Assassino", de 2003, quando faturou o Oscar de Melhor Atriz.

As "Feias" de Glória
Foram várias as ocasiões em que Glória Pires aceitou "ficar feia" para compôr um tipo. A primeira vez foi em 1980, na novela "As Três Marias". A atriz surgiu na telinha com os cabelos curtos, no estilo "joãozinho", e usando óculos de grau. A Maria José de Glória era uma espécie de "patinho feio", completando o trio do título, formado ainda pelas beldades Maitê Proença e Nádia Lippi.

Em "Memorial de Maria Moura", Glória interpretou a líder de um bando de pistoleiros

Na minissérie "Memorial de Maria Moura" (1994), a atriz interpretou a personagem-título: uma mulher forte e masculinizada, que se torna líder de um grupo de bandoleiros no sertão nordestino, no século XIX. Glória adotou uma imagem rude e viril, vestindo roupas masculinas, montando a cavalo, disparando tiros, e com os cabelos sempre presos e cobertos por um turbante - somente ao se apaixonar por Cirilo (Marcos Palmeira), Maria Moura se expõe, solta os cabelos e resgata sua feminilidade.
Em "O Rei do Gado" (96/97), Glória foi Rafaela, que se infiltra na fazenda de Jeremias Berdinazzi (Raul Cortez), dizendo-se sobrinha dele. O visual de Glória na novela foi bastante criticado na época - dizia-se que ela foi prejudicada por um estranho e assexuado corte de cabelo. Sua personagem terminou um tanto apagada na trama - embora a atriz tenha defendido Rafaela até o fim, com uma atuação eficiente.
Atualmente, em "Insensato Coração", a atriz mostra novamente sua entrega. Depois de ter sido presa, Norma foi se envolvendo no cotidiano da cadeia, e se tornando mais rude e brutalizada. Em breve, a personagem deve ser libertada, e aí chega uma nova metamorfose: Norma se casará com Teodoro (Tarcísio Meira) e vai virar uma mulher fina e sofisticada.

Papéis Marcantes
Sônia Braga e Glória Pires: mãe e filha em "Dancin Days" (78/79)

Mas nem só de personagens "feias" vive o sucesso de Glória. A atriz sempre buscou papéis difíceis e complexos. O primeiro deles foi a rebelde e mimada adolescente Marisa, de "Dancin' Days" (78/79). Com apenas 14 anos, Glória passou por diversos testes, até ser escolhida para interpretar a filha da ex-presidiária Júlia Matos (Sônia Braga). A atriz completou 15 anos durante a novela, e Marisa tornou-se sua primeira personagem de sucesso.
Dez anos depois, Glória ganhou outro clássico de sua carreira: Maria de Fátima, a inescrupulosa filha de Raquel (Regina Duarte) em "Vale Tudo" (88/89, atualmente em reprise no Canal Viva). Há quem aponte a vilã Maria de Fátima como o melhor momento da carreira da atriz.

Glória Pires e Regina Duarte: filha e mãe em "Vale Tudo" (88/89)

Glória Pires (como Nice) e Cláudio Corrêa e Castro em "Anjo Mau"
Em 1993, ela aceitou atuar em dose dupla no remake "Mulheres de Areia", encarnando as gêmeas Ruth (a boa) e Raquel (a má). Glória atualizou as personagens originalmente interpretadas por Eva Wilma, e dominou a novela.
Em 1997, novo remake: "Anjo Mau", com Glória interpretando a terrível babá Nice, papel defendido por Susana Vieira na versão original da novela.
Mais recentemente, ela foi a Júlia de "Belíssima" (2005/06), de Sílvio de Abreu, e protagonizou grandes cenas ao lado de Tony Ramos, Pedro Paulo Rangel e Fernanda Montenegro.
Aos 47 anos, Glória mantém acesa sua vontade de atuar em projetos desafiadores, como a atual Norma de "Insensato Coração", ou a inesquecível Ana Terra da minissérie "O Tempo e o Vento" (85), baseada na obra de Érico Veríssimo. Como a própria atriz contou na biografia "40 Anos de Glória", lançada em 2010, ela teve de convencer a direção da TV Globo de que era capaz de interpretar a personagem, e chegou a conciliar as gravações da série, no sul do Brasil, com a novela "Partido Alto" (84), na qual também atuava.
O resultado valeu a pena, e aos 23 anos Glória entrava de vez para o time dos grandes atores da Globo - pódio no qual está até hoje.

Glória Pires e Pedro Paulo Rangel em "Belíssima"


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