quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Flores Raras (Crítica): 'Dedicação de Gloria Pires pode lhe render uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante'

FLORES RARAS (Crítica)

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Por Emílio Faustino

O 19º filme do diretor brasileiro Bruno Barreto (Dona Flor e seus dois maridos) chega aos cinemas após uma longa jornada em busca de patrocínio. Mesmo contando com atrizes expressivas como Miranda Otto (O Senhor dos Anéis) e Glória Pires (E se eu fosse você 1 e 2), o longa orçado em 13 milhões de reais sofreu com a recusa de instituições privadas que preferiram não financiar a história de um triangulo amoroso homossexual.
Mas o que se vê nas telas vai muito além de um envolvimento entre três mulheres, de tal forma que o fato delas serem do mesmo sexo acaba sendo um detalhe e não o foco do filme. Um grande feito do diretor que com grande sensibilidade conseguiu apresentar personagens que fugiram do estereótipo de lésbicas caminhoneiras.

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É importante ressaltar que diferentemente de “Dona Flor e seus dois maridos”, este filme não se trata de um triangulo amoroso convencional, por que apresentam personagens que amam de formas diferentes. Elas não dividem o sexo, elas compartilham da companhia de forma madura, quebrando qualquer convenção da época, que na verdade permanecem até os dias atuais.
Flores Raras conta a história de amor entre Elisabeth Bishop (poeta americana vencedora do Prêmio Pulitzer em 1956) e Lota de Macedo Soares (arquiteta carioca que idealizou e supervisionou a construção do Parque do Flamengo). Falado a maior parte do tempo em inglês e ambientado no Brasil dos anos 50 e 60, o filme conseguiu através de computadorizarão gráfica (investimento de mais de 1 milhão de reais) recriar um Rio de Janeiro que crescia ao som da Bossa Nova. Destaque para a fotografia do filme que conseguiu capturar através das ótimas tomadas de câmera as belezas naturais do Brasil.
A forma como as personagens são apresentadas não deixa dúvidas ao telespectador do quanto elas são opostas. De um lado Elisabeth Bishop (Miranda Otto), uma poetiza a princípio misteriosa, metódica e insegura de si mesma e do seu trabalho. Do outro, Lota (Glória Pires), uma arquiteta bem sucedida, nem um pouco modesta e totalmente confiante de si mesma.
E não deu outra: no bom e velho estilo Issac Newton “os opostos se atraem”, as personagens vivem uma paixão arrebatadora, deixando de lado a antiga parceira de Lota, que para desespero de todas as pessoas que possuem amor próprio, aceita conviver com as duas na condição de finalmente poder adotar uma filha. Imaginem vocês receber uma amiga do colégio em casa, apresentar para seu/sua parceiro (a) e de repente eles se apaixonam. Nada fácil, não? Ela poderia muito bem ir embora, mas o amor que ela tinha por Lota era maior ou no mínimo bem diferente do amor carnal que estamos acostumados a ver por aí…

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Estabelecido o triangulo, a história segue com foco na relação de Elizabete e Lota, com diálogos que oscilam entre o espirituoso e o reflexivo. As atuações são um capitulo a parte, Miranda Otto consegue convencer como poetiza recatada, mas é Glória Pires que rouba a cena não só por atuar falando em inglês, mas por conseguir compor uma personagem forte, com trejeitos e olhares diferentes de tudo o que já fez. Ela consegue fazer o publico rir apenas com suas expressões, o que é algo fantástico.
“Esperei 17 anos pelo papel de lésbica”, revelou a atriz Gloria Pires na coletiva de imprensa do filme. Por ai já dá para se ter uma ideia do quanto ela se dedicou a personagem, dedicação esta que pode lhe render uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, ao menos essa é a expectativa do diretor e dos produtores do filme, que irão lançar o filme no exterior no mês de novembro para que o mesmo se qualifique para poder concorrer à premiação. (Uma aposta um tanto quanto tanto prematura, haja vista que os principais filmes do Oscar começam a estrear em novembro).
O ponto alto da história e porque não dizer poético, esta na trajetória das personagens que vão exatamente ao sentido oposto da forma como foram apresentadas. Após o choque das diferenças e dos contrastes gritantes, as personagens crescem mutuamente, Elizabete se torna uma escritora mais confiante e uma pessoa mais ousada e Lota se torna uma pessoa mais sensível e consegue aplicar poesia até mesmo em seu trabalho. Porém as personagens não conseguem sustentar este ponto de equilíbrio e acabam seguindo no sentido oposto, onde Elizabete se torna uma poetiza bem sucedida e Lota uma mulher insegura e dependente do amor de Elizabete.
O filme proporciona bons momentos de reflexão, além de apresentar uma ótima crítica social. Interessante observar que o filme começa com Elizabete lendo o que seria os ensaios de um dos seus poemas mais famosos e termina com o poema sendo finalmente concluído. O que evidência que o que faltava aos versos da poetiza não era talento, o que lhe faltava era a vivência. E é justamente essa vivência que “Flores Raras” apresenta de forma bela e sutil.
Ao fim do filme é quase inevitável não chegar em casa e pesquisar os textos de Elisabeth Bishop, considerada uma das mais importantes poetisas do século XX. Aos patrocinadores que negaram apoio ao filme, vai ficar o arrependimento de não terem associado à marca a este ótimo empreendimento.
Flores Raras é sem maiores exageros, um do melhores (se não o melhor) filmes nacionais apresentados este ano e estreia dia 16 de agosto nos cinemas.

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SINOPSE

1951, Nova York. Elizabeth Bishop (Miranda Otto) é uma poetisa insegura e tímida, que apenas se sente à vontade ao narrar seus versos para o amigo Robert Lowell (Treat Williams). Em busca de algo que a motive, ela resolve partir para o Rio de Janeiro e passar uns dias na casa de uma colega de faculdade, Mary (Tracy Middendorf), que vive com a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares (Glória Pires). A princípio Elizabeth e Lota não se dão bem, mas logo se apaixonam uma pela outra. É o início de um romance acompanhado bem de perto por Mary, já que ela aceita a proposta de Lota para que adotem uma filha.

DIREÇÃO


  • Bruno BarretoBruno Barreto





  • FICHA TÉCNICA

    Roteiro: Carolina Kotscho e Mathew Chapman
    Título Original: Flores Raras
    Gênero: Romance, Drama
    Duração: 1h 58min
    Ano de lançamento: 2013
    Classificação etária: 16 Anos

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