sábado, 16 de março de 2013

Gloria Pires fala de papel mais polêmico de sua carreira, no filme ‘Flores raras’




FLORIANÓPOLIS - Durante décadas, ela foi a heroína de telenovelas de quem toda dona de casa brasileira aprendeu a gostar. Sua popularidade na TV só rivaliza com o sucesso no cinema brasileiro recente, como coprotagonista (com Tony Ramos, outro galã televisivo) da franquia de comédias românticas “Se eu fosse você”, iniciada em 2006. Em breve, o público verá Gloria Pires pela primeira vez fora de sua zona de conforto, à frente do drama de época “Flores raras”, dirigido por Bruno Barreto. No filme, com estreia prevista para 24 de maio, a Roberta Leone de “Guerra dos sexos”, atualmente em cartaz na TV Globo, interpreta Lota Macedo Soares (1910-1967), arquiteta e urbanista brasileira que manteve um relacionamento amoroso de 15 anos com a poeta americana Elizabeth Bishop (1911-1979).

Embora idealizadora de projetos essenciais para a transformação da paisagem do Rio de Janeiro, como o Parque do Flamengo, a história de Lota foi relegada ao obscurantismo, sepultada sob preconceitos em relação à sua sexualidade e sua formação profissional. Gloria espera que o filme de Barreto, o segundo mais votado pelo público entre os 52 títulos da mostra Panorama do Festival de Berlim, em fevereiro, lance luz sobre a importância do trabalho de Lota e a história de amor por trás dela.

Ela foi muito criticada, na época, por não ter uma formação acadêmica formal e por ter sido amiga íntima do então governador Carlos Lacerda. Lota chegou a ser destratada pelo próprio Burle Marx, autor do projeto paisagístico do parque, em um grande veículo de comunicação. Claro que o fato de ela ser homossexual também pesou muito nessa rejeição. Nos anos 1950 e 1960, os gays podiam ser presos, internados em manicômios, então, só lhe restava o isolamento — lembrou a atriz de 49 anos durante o 4º Encontro do Cinema Nacional, semana passada, em Florianópolis, quando o filme foi exibido pela primeira vez no Brasil.

Intérprete de mocinhas e vilãs em produções que marcaram a história da TV brasileira, como “Vale tudo” (1988) e “Memorial de Maria Moura” (1994), a atriz surge no centro de uma família alternativa em “Flores raras”. No filme, Elizabeth (Miranda Otto) é apresentada a Lota por Mary (Tracy Middendorf), compatriota da poeta e amante de Lota. Na época, no início dos anos 1950, Mary e a brasileira vivem como casal na fazenda Samambaia, nos arredores de Petrópolis, e planejavam adotar filhos. A paixão entre a introvertida Elizabeth e a determinada Lota revela-se arrebatadora, e logo forma-se um tenso triângulo amoroso.

Mulheres reais

As cenas de intimidade entre as amantes são mostradas com elegância pelo diretor, e interpretadas com impressionante naturalidade pelas atrizes. Lota é o terceiro de uma série de personagens inspirados em tipos reais vividos por Gloria nos últimos anos no cinema: em “Lula, o filho do Brasil (2009), ela foi Dona Lindu, mãe do ex-presidente brasileiro; em “Nise da Silveira”, de Roberto Berliner, ainda inédito, encarna a fundadora do Museu do Inconsciente. Nenhuma, no entanto, chega perto da radicalidade de Lota, uma mulher de personalidade forte que acabou desiludida e sozinha, a ponto de cometer suicídio.

Faço certos trabalhos porque acredito na mensagem que trazem. Sei que há preconceito, mas seria bacana se as pessoas se despissem de ideias preconcebidas e se dispusessem a se abrir para coisas que não conhecem direito — diz Gloria, que viu muitos muxoxos por causa de Dona Lindu. — Muita gente achou que fiz o filme por dinheiro. Diziam barbaridades. Eram reações passionais de quem não entendia que se tratava de um ser humano, uma mulher que guiou a família inteira através das adversidades.

Se na TV Gloria tem brindado o telespectador com os mais diferentes estereótipos do imaginário brasileiro, é no cinema que ela tem conseguido explorar a realidade que o inspirou. Mas a atriz não acha que a televisão peque por ser excessivamente comportada:

Ela tem o compromisso de não perder a audiência. Mesmo um assunto chocante tem que ser trazido para a tela de forma que possa entrar no lar do telespectador, sem que as pessoas a desliguem ou mudem de canal. Veja o caso de “Salve Jorge”, da Glória Perez, que fala sobre o tráfico de seres humanos — analisa a atriz carioca, que acredita que a TV brasileira está próxima de aceitar um personagem como Lota. — A gente já vê os homossexuais em comédias, mas não em uma situação de naturalidade. No passado, Gilberto Braga e Sílvio de Abreu tentaram trazer a discussão de forma mais séria e foram cerceados. Mas tudo acontece a seu tempo. Hoje, há um movimento forte de aceitação dos gays. Se eles já estão sendo vistos com naturalidade no teatro e no cinema, já, já vão para a televisão.

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