quarta-feira, 27 de julho de 2011

Personagem de Glória Pires mostra amor patológico na TV

Quem acompanha a novela Insensato Coração já se pegou roendo as unhas na torcida pela Norma, personagem de Glória Pires, seja para vê-la completar sua vingança ou para que a personagem se dê mal. Na novela, Norma era uma enfermeira que foi seduzida e enganada por Léo, personagem de Gabriel Braga Nunes, e acabou indo parar na cadeia. Apaixonada e magoada, ela arquitetou um plano de vingança para destruir o homem por quem é apaixonada.
Segundo a psicanalista e escritora Tatiana Ades, da capital paulista, o comportamento de Norma é mais comum no nosso dia a dia do que imaginamos. "Ela está bem enquadrada no perfil do amor patológico e da mulher que ama demais, mas se ama de menos. Notamos que ela quer ficar perto dele, tem uma dependência, tanto que a vingança dela não se completa. Ela não o entrega para a polícia, mas fica com ele por perto em uma tentativa de demonstrar poder", explicou.
Gisele Lelis Vilela de Oliveira, psicóloga de São José do Rio Preto (SP), acha que há poucas "Normas" na vida real que aceitam o sentimento de vingança. "Somos humanos e estamos sujeitos às mais diversas mudanças. O sofrimento faz com que mudemos nossa vida, quando somos incomodados por nós mesmos ou por quem se relaciona conosco; No caso da Norma, ela foi instigada pelo outro a mudar e foi uma escolha vingar-se. Algumas pessoas despertadas pelo sofrimento, por uma humilhação ou desprezo, nutrem um sentimento obsessivo de vingança, de 'fazer justiça com as próprias mãos' para tentarem mostrar superioridade quando, na verdade, sentem-se frágeis e ameaçadas", disse.
Tatiana explicou que mais de 50% dos relacionamentos atuais não são saudáveis e este é um problema que vem da infância. "Se buscarmos analisar o passado da Norma, vamos descobrir que ela teve uma família desestruturada, é muito carente e trouxe isso para a vida adulta. Acaba repetindo o perfil", disse. Mulheres com este tipo de comportamento estão sempre se relacionando com homens doentes, como o Léo, que pode ser considerado um sociopata. "As pessoas que amam demais agem por impulso. A Norma mesmo age emocionalmente e em um comportamento de transtorno compulsivo-obssessivo", explicou a psicanalista, que falou que o tratamento para este caso inclui muita terapia.
"A Norma tem características muito singulares. Ela é multifacetada, sofre, sente-se culpada por suas atitudes, mas não deixa de ter a postura vingativa. É obstinada, mas devido à paixão, tem se colocado em situações complicadas. Diferente do Léo, que mostra traços de psicopatia, não mostra remorso ou sentimentos positivos, ela não tem este perfil. Como ela é uma personagem repleta de conflitos, acaba rolando uma identificação com o público e ela age em resposta à sua paixão não correspondida", disse Gisele.
Os riscos de um relacionamento como o de Norma e Léo são altos e não estão presentes apenas na vida dele, alvo da vingança. "Há mulheres que não conseguem se livrar do companheiro porque não entendem como estão com um homem que lhes faz mal. Geralmente há quadros depressivos envolvidos e muitas mulheres, quando não são assassinadas pelo parceiro, acabam se matando por causa da depressão." Gisele concorda com Tatiana: "amar demais é uma doença. O amor no qual existe co-dependência afetiva, em que o outro se torna o centro da vida de alguém, não é saudável e quando se está em um relacionamento com características destrutivas, infeliz e, mesmo ciente não consegue terminar a relação, esta dificuldade é um indício de situação patológica. A dependência afetiva pode ser tão prejudicial quanto qualquer outro tipo de dependência e apesar de não parecer, as mulheres são as únicas vítimas deste mal".
Por acreditarem que este tipo de relacionamento é comum e "padrão", muitas mulheres demoram a buscar ajuda e acabam sofrendo por longo período. "Quando a mulher percebe que passou muito tempo focando sua energia na vingança e não fez nada por si, limitou-se a viver para atrapalhar a vida do outro, acaba sofrendo ainda mais", lembrou a profissional de São José do Rio Preto. Além disso, pessoas com o perfil da Norma costumam buscar relacionamentos que tragam sofrimento e têm problemas de auto-estima. "A Norma não tem ciência do perigo que corre ao se relacionar com um sociopata. Ela não sabe, mas a vítima é ela. E o problema é que homens agradáveis de verdade não atrairiam esse tipo de mulher, porque inconscientemente, ela os desprezaria, buscando repetir o padrão, se relacionando com homens com o mesmo perfil do Léo", disse a psicanalista da capital paulista.
Todavia, há cura para mulheres como a Norma e o primeiro passo é a conscientização de que há um problema no relacionamento, pois principalmente no caso da novela, a personagem oferece riscos à sociedade por já ter matado e manipulado pessoas para chegar ao seu objetivo. "Processos psicoterapêuticos podem ajudar essas mulheres, pois a psicoterapia vai trabalhar motivações e questões relacionadas ao problema, ajudando a buscar nova realidade, novo foco e novas motivações. Mas para isso é preciso que a pessoa assuma que tem o problema", disse Gisele.

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